Apoiado no parapeito da janela, Roberto contemplava o falso horizonte daquele lugar. Seus olhos convergiam ao infinito impossível, procurando traços diferentes de tudo, até mesmo na Dalva estrela que surgia mais rente ao céu. Aproximava-se com os olhos, cerrando-os mecanicamente. Aquele lugar estava vivo. Estranhamente vivo, claro. Mas de fato respirava. Respirava fumaça de cigarro, dos automóveis, bafo de cachaça, perfumes dos mais vagabundos até os mais caros. E suor, e gozo, e sangue e lágrimas. Com sua polução vibrante, com cores abundantes e chamativas, gritava aos passageiros da vida: atenção! Como grita a cobra coral, em sua febril mudez.
Longas árvores de tronco férreo retorcido erguiam-se até o céu. E suas cascas eram cinza, como na gentileza da ausência da escuridão no branco: sem gosto. E tudo pulsava. Pulsavam as ruas, as avenidas, as nuvens, as estrelas, as paredes e seu peito. Mas este vibrava largamente, como na procura da afinação inexistente. Seu diapasão brutalmente ressoava. E passavam morcegos e corujas, como se respondessem ou zombassem.
Mesmo sendo comum aos seus olhos, algo naquela paisagem sempre convidava seu desejo a atirar-se sem medo pela janela. E então, observava por dentre as árvores de pedra, que tremiam uma seiva bruta de ossos pálidos e derme quente, ou não. Procurava por dentre a escuridão, seguindo a direção apontada por suas órbitas hiperativas e dormentes. Ali, ouvia o constante convite. Ao qual só respondia com sua retina fria e calculista, pormenorizando a textura das nuvens negras do céu.
Aquela voz o chamava. A escuridão embrenhava-se contundente em todos os cantos. Emaranhava em seus cabelos, sucumbia nos postes, repelia os mendigos e abandonava os vira-latas. Contudo, o som era perfeitamente profundo: atravessava todo o mar de indubitável cegueira. Seus olhos corriam de um lado a outro, por entre as grandes árvores de pedra trêmula. Deu um longo trago no cigarro, apagando-o logo em seguida na pedra do parapeito. Coçou a nuca. Tenho de parar com essa porcaria, cuspiu, atirando o maço de cigarros janela a fora.
A voz feminina o convidava continuamente. Seus olhos obedeciam atenciosamente, como um dócil animal faminto de paisagem. Aprofundava-se mais e mais naquele lugar denso de vida e pensamentos. Notou o brilho do sol que estava pra nascer. Resgatou do fundo da gaveta do móvel escuro, ali ao seu lado, um relógio de pulso sem pulseira. Quatro e meia. Agora realmente não adianta tentar dormir. Tarde demais. Sempre a mesma coisa: esse sono vagabundo de sabe-se lá o quê, que simplesmente não vem.
Sempre tarde demais. Correu os olhos uma última vez por aquela floresta. Correu os olhos para o nada, assim como todas as madrugadas: de novo e de novo e de novo. Na verdade, a garota em si, sempre esteve ali, mas nunca presente para Beto. Era simplesmente a cidade, que esticava seus braços ao céu e bocejava baixinho, no noticiário matinal de incontáveis televisões.
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