Choque. Talvez essa não seja a melhor descrição, mas de fato, é a mais curta e direta. Seca, assim como a garganta que retém palavras sem sentido.
Agora tinha provas, pensava. Olhava fixamente para a porta, sentado na velha poltrona cor de sangue, movida vagarosamente de sua posição original. Sua expressão petrificada enraizava a sala de estar em um ambiente hostil, louco, pragmático. O sol que se punha lentamente lançava deveras seus últimos tentáculos cor de laranja por entre as frestas descuidadas da janela manchada. O mundo acontecia normalmente. Carros passavam ruidosos pela avenida, pessoas conversavam, gritavam e gargalhavam. De vez em quando, pássaros passavam em bandos no alto do céu, furtivos da noite. O mundo acontecia, percebia atônito. Apesar de seu interior congelado em murmúrios, de suas vagas idéias e lembranças.
Recolheu a pequena carta do chão e a releu. Queria ter total certeza da existência daquelas palavras. E por mais que as lesse, letra por letra, não assumiam em súbito, o fingimento ou uma piada de mau gosto. Observou a assinatura. Sim, era a assinatura de seu amigo. Sabia que sim, já que aquela rubrica em garranchos, digna do médico que era Paulo, seria impossível de se copiar. Largou mais uma vez o papel ao chão. Claro que suspeitava ao longo do tempo! mas nunca passou de um ciúme bobo. Sentia-se um tanto incomodado pelo fato de sua esposa e seu grande amigo andarem juntos. Mas logo dava uns tapas mentais em si mesmo. Afinal não havia cabimento pensar que havia algo entre os dois! Eram amigos de infância, oras! Quase irmãos. E pensando bem, tinha receio por esse “quase”.
Teve a idéia de surpreender a esposa no trabalho, levá-la para jantar no novo restaurante que ficava à beira-mar. Fez as reservas, foi até a repartição mais cedo e adiantou sua parte do serviço. Conseguiu terminar tudo em menos tempo que havia imaginado! pensou. Saiu do prédio, aproveitou para passar na floricultura. Atravessou a cidade inteira para chegar até seu destino. Ligou algumas vezes no celular de Aline. Nenhuma resposta. Perguntou por ela na recepção.
Ela saiu mais cedo com um amigo. Mas você não tem idéia pra onde foram? Ah, ele deixou essa carta aqui, mais cedo. Ela leu, mas acabou esquecendo. Quem sabe o senhor não consegue descobrir?
Foi até o local citado na carta. Era um mirante abandonado, perto do restaurante onde havia feito as reservas. Chegou lá em alguns instantes. Em tempo de ver Aline traindo-o com Paulo. Entrou imediatamente no carro e foi pra casa.
O que fazer? O que fazer? Realmente não sabia. Arrastou lentamente uma velha poltrona na sala de estar. Sentou-se de uma vez só, num baque de desconstrução. Choque. Talvez não fosse a melhor descrição, mas de fato, é a mais curta e direta. Seca, assim como a garganta que retém palavras sem sentido.
Agora tinha provas, pensou. Olhava fixamente para a porta, esperando a chegada de sua esposa. Esperou durante horas. Por mais que o sol tentasse manter-se no alto, segurando com seus últimos longos tentáculos naquele apartamento, foi em vão. A noite chegou depressa e fria.
Não posso perdoá-la. Mal consigo, na verdade. O que fazer? O que fazer?
Levantou-se lento da poltrona. Caminhou até o outro lado da sala, até o móvel colonial, de madeira escurecida pelo tempo. Abriu a última gaveta.
Tateou por algo por alguns instantes, até que sentiu uma superfície levemente áspera. Retirou a pesada caixa da gaveta. Caminhou até a poltrona, sentou-se novamente, pousou a caixa em seu colo e a abriu. Olhou atentamente, ainda em choque. E, apesar de não haver melhor descrição, preferia contentar-se com ela. Seu corpo não respondia com exatidão. Retirou uma pequena arma de dentro da caixa. Verificou as balas. Duas balas ao todo. A fria luz da lua cheia entrava aos poucos ali, iluminando o rosto assombrado do homem. Esperou mais. Pesadas nuvens iam e vinham por todo o vasto céu da janela de seu apartamento. Esperava asfixiado com as palavras entaladas em sua garganta seca.
Clique. A maçaneta girou lentamente.
Levantou-se da cadeira, pegou a carta em uma das mãos e enfurnou o revólver no bolso. A silhueta de sua mulher entrou em casa, pousou o casaco no descanso, acendeu a luz e fechou a porta. Virou-se lentamente. Observou a expressão horrorizada de Lúcio.
Lu? O que houve? Notou a carta na mão de seu marido.Aproximou-se lentamente e deu um abraço, derramando lágrimas pesadas na camisa azul turquesa de Lúcio.
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