domingo, 28 de junho de 2009

Chegada

Toda a cidade estava voltada para Copacabana. Quem olhasse pra cima, não teria a costumeira visão das estrelas mais exibidas, que de comum, apresentavam-se firmes no céu mais iluminado. Não se via também a lua. Fosse em sua cheia e profundíssima brancura ou em seus quartos crescentes, minguantes e dormentes ou, o contorno negro de uma mocidade lunar. Até mesmo o vento, corria em direção à praia. A presença humana estava concentrada nas areias. Aos poucos, quem ainda não havia chegado, juntava-se ao formigueiro embriagado de expectativas e resquícios natalinos. Mãos dadas, dedos cruzados, taças vazias, tecido branco e das mais diversas cores, povoava e demarcava o passar lento e sublime da humanidade por mais um ano. Sorrisos amontoados e um silêncio abafado, forçado, constrangido.

Os últimos ônibus circulavam pela última vez em seus determinados trajetos. Alguns cheios, outros vazios, estes numa prosa besta: motorista/cobrador. No fim do expediente, todos desembocariam na praia, em busca da breve comemoração na madrugada, assim como um rio segue seu curso até um mar bobo e sem jeito. E todos os peixes seguiam até Copacabana.
E todas as aves seguiam até Copacabana. E todos os insetos e crustáceos seguiam até Copacabana. E até os tolos tristes seguiam a Copacabana, acompanhados da profundíssima solidão cotidiana.

Ônibus com destino à praia. Fora Ramiro, cobrador de 32 anos e Augusto, motorista de 55, o veículo contava com a presença de mais dois passageiros. Uma senhora que cochilava no assento mais afastado e Henrique, vestido de branco, indo encontrar seus amigos perto do mirante nº 19. As ruas estavam completamente vazias. O ônibus movia-se despreocupadamente por todo percurso, porém, apressado. Augusto avistou um jovem no ponto em sua frente. Cerrou os olhos pra ter certeza. Viu um jovem usando um capote bege e uma camisa branca por baixo. Reduziu gradativamente a velocidade até que parasse em alguns trancos e estalidos.

Boa noite. Augusto respondeu com um aceno.
O estranho novo passageiro passou o cartão na máquina junta à catraca, cumprimentou Ramiro e sumiu da visão dos dois homens. Sentou-se próximo a Henrique, pousou uma pequena maleta no colo, tirou um antigo relógio de bolso de dentro do capote, mirou os ponteiros por algum tempo, fez cara de quem calculava algo de cabeça e engoliu seco.

Licença... Moço. Henrique olhou para o rapaz. Pois não? O senhor acha que chegaremos à praia em tempo? Quero dizer, antes de meia-noite?

Henrique deu uma boa olhada em seu relógio e fez que sim. Ao menos, esperava que sim. O homem agradeceu. O senhor vai encontrar alguém?

Tenho compromisso certo, se é isso que quer insinuar. E você?
Encontrar uns amigos pra comemorar. Sabe como é, né? Passar esse período sozinho é muito chato.

Sei sim, sei sim. Se não for muito incômodo, tem como dizer onde estamos?

Henrique olhou pela janela e procurou algo que indicasse a localização do ônibus, que esmagava o silêncio mortal por onde passava, deixando um rastro de ecos no vazio. Viu uma placa e informou ao amigo de viagem.

Obrigado.

Mas me diz, você é daqui mesmo? E coçou a cabeça, preocupado. Tinha certo receio. Aquele homem era muito suspeito. Dava a impressão de ser algum tipo de terrorista, ou fugido de um manicômio. Quis puxar conversa pra averiguar.

Na verdade sou novo por aqui, sabe? Percorri muitos lugares de uns tempos pra cá. Meio que meu trabalho pede isso. Depois daqui, vou até o México e descanso um pouco. Depois tenho de ir até a China. Loucura, não?

Putz, então deve ser bem legal conhecer o mundo!

Na verdade não. É sempre a trabalho e quase nunca tiro folga. O sujeito dá uma boa olhada em seu relógio de bolso e preocupado, volta a perguntar a opinião de Henrique.

Ah, não se preocupe! Chegaremos a tempo. Mas, mudando de assunto completamente, o que acha dessa ameaça de um novo conflito no Oriente Médio?

Se você diz...
Ah, vai acabar tudo da mesma maneira, sabe? Confusão, intervenção, mais confusão e vai ficar pro outro ano, como sempre. Fica na mesma, sempre.

Ah, tenho a esperança que tudo se resolva. Mas se você acha isso...

Acho não, tenho certeza.

Ok então... E sobre política? Será que iremos nos deparar com algo menos corrupto?

Putz! Vai ser pior ainda, se é que pode. Novos escândalos e tudo mais. Quer dizer... Escândalos antigos com cara de novos. Um filete de suor partiu de sua testa.

Pior que você deve ter razão, sabe? Mas não custa nada uma pontinha de esperança. Ajeitou-se no assento e coçou as têmporas.

Se servir de consolo, digo que a ciência vai avançar como nunca! E outra: aqui no Brasil, a intolerância vai diminuir consideravelmente. No entanto, outros problemas ligados ao preconceito vão surgir.

O senhor é mágico ou vidente por acaso?

...

Perdoe-me se fui rude, mas estou admirado com a certeza de suas palavras.

Estou atrasadíssimo, o que me preocupa é isso. E está desculpado. O rapaz suava muito e, estava visivelmente consternado.

O ônibus para repentinamente Augusto avisa a chegada em Copacabana.
Todos reunidos na praia. Passos caminham num agrupamento incrível, em direção ao mar e, juntando-se cada vez mais.

Henrique levanta-se e pensa em despedir-se de seu companheiro. Aos poucos não é mais possível ver a cor da areia. Copacabana está completamente lotada e clamando por pontinhos vazios pra respirar. O mar beija devagarzinho a costa.

É em vão, está sozinho no ônibus. Ramiro e Augusto estavam em um dos mirantes, sem sapatos, rindo com suas respectivas esposas e filhos. Henrique decide descer até o lugar que havia marcado com seus amigos.

O contingente impressionante e imensurável de pessoas amontoa-se mais e mais pra ter uma vista do mar e dos barcos cheios de fogos de artifício. Os risos, cheiro de embriaguez e esperança toma o ar aos poucos.

Henrique caminha vagaroso, contando as placas. Nº 13, 14, 15...

O misterioso rapaz abre caminho lentamente entre a multidão. Tira seu calçado, despe seu capote, empunha o relógio e observa os segundos passando. Falta pouco.

Ramiro beija apaixonadamente Dona Ana, enquanto segura seu filho, Paulinho, pela mão.
Um pedido de casamento é feito com sucesso, enquanto um namoro é desmanchado.

Uma torta de pêssegos escorrega das mãos de Gabriele e cai. Mas Maria a pega no ar.
Mais risos.

16, 17...

As câmeras das emissoras de televisão focam o céu de Copacabana. O silêncio espantoso domina o local e, ouve-se apenas a respiração coletiva.

Um cigarro é apagado no chão. Um bebê acorda chorando e é rapidamente afagado nos braços da mãe. Uma aposentada de 92 anos tem uma parada cardíaca e morre lavando as mãos, no banheiro.

O estranho puxa as calças até o joelho e entra no mar, rompendo todo o esquema de segurança da polícia carioca.

18...

A respiração de todos para por um instante. O coração pula uma batida.

O relógio dispara.

19...

O rapaz misterioso mostra-se diante de toda multidão.

19! Henrique abraça os amigos.

Fogos multicoloridos riscam e explodem no céu.
O próximo destino daquele cara estranho é o México, pensa Henrique.

Rolhas voam baixo, cheiro de espuma.
O silêncio vazio da noite é quebrado repentinamente.

Feliz ano novo! dizem. Feliz ano novo!

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