Abaixou e puxou a canga que estava enrolada nas pernas, flamulando azul. Alguém vinha em sua direção. Entregou a canga à garota.
- Obrigada.
- Ahm, só veio voando. Não foi nada.
Ela sorriu apertando os olhos e depois virou e saiu caminhando. Ele retribuiu meio sem jeito. Cabelo preto. pintado. Olhos castanhos enormes e um corpo bonito. Nada de mais, nada de muita coxa, nada de muito peito, nada de muita bunda. Era proporcionalmente charmoso. A pele provavelmente era macia. Estava com a parte de cima do biquíni e saia que ia até a metade das pernas. Passou a mão nos cabelos e tragou um cigarro invisível. Baixou a cabeça. Enterrou os pés na areia e talvez fosse melhor deixar pra lá. Alguns minutos se passaram, o mar tinha barulho interminável de espuma.
- Escuta, quer um cigarro? levantou a cabeça. e fez que sim.
Ela tirou dois da bolsa junto de um isqueiro pequeno e quadrado enquanto ele caminhava em sua direção. Pôs na boca, protegeu com a mão e ela acendeu. Tragou com vontade e sentou. A merda toda que havia pensado sobre o vício deveria de ser reconsiderada. Conversaram até o fim do horário do almoço. Guardou o número no fundo do bolso. Prometeu ligar. Despediu-se e foi embora.
Limpou os pés, calçou-se e voltou pro escritório. fumando. Hm, agora teria de se limitar nessa de fumar. O grande problema é que nunca comprava. O universo conspirava continuamente pra que todos lhe dessem quantos quisesse/precisasse. Camisa pra dentro da calça. Pisou na bituca. Bateu o ponto, entrou no elevador. A música continuava deprimente, as correntes continuavam com o barulho estranho. Mas era mais suportável agora. Terceiro andar. Escovou os dentes e lavou o rosto. Sentou-se, recolocou a gravata. Eram dezoito fichários. Certo, até o fim do expediente. Trabalhou compulsivamente até terminar tudo. Poderia até sair mais cedo. Se todo porre levasse à praia. Se toda praia levasse a garotas com cigarro e todo cigarro levasse a um número de telefone, teria de estocar bebida por um bom tempo. Isso garantiria a salvação de suas tardes de trabalho.
O gerente do departamento foi até o cubículo. Usava óculos grossos. Acima do peso, ar de prepotência, cabelos ensebados. E tinha algumas cicatrizes. Voz irritantemente rouca e a cereja no topo do bolo era seu jeito completamente escroto. Um desses tarados enjaulados que socam uma no escuro pras todas as coisas mais nojentas que existem. Tinha um grande nariz torto, quase um desvio. Diziam que antes de começar no escritório era pugilista. Por alguns problemas teve de largar os ringues. E daí as cicatrizes e o nariz. Diziam.
- O chefe quer te ver. E tem de ser agora.
- Certo.
- Sou seu superior, moleque. Responda adequadamente.
- Sim senhor.
- Ele tá te esperando, anda.
- Hm, ok... senhor– não podia responder como queria. Independente do que diziam ser verdade ou não, apanhar seria o mínimo. Podia ser demitido. O escroto era protegido do chefe. Sobrinho dele, na verdade. – Estou indo, senhor.
Organizou a mesa, desligou o computador e trancou as gavetas. Levantou-se, alinhou a gravata e passou os cabelos pra trás com as mãos. Foi até onde acabavam os cubículos, em frente à porta envernizada. Bateu de leve algumas vezes, esperou um pouco e ouviu a voz de dentro que dizia pra que entrasse. Entrou e empurrou a porta de volta.
(...)'Poderia até sair mais cedo. Se todo porre levasse à praia. Se toda praia levasse a garotas com cigarro e todo cigarro levasse a um número de telefone' risos.
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