segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Pequenas Canções (parte 4)

- Ouça, hm, você é um dos mais jovens a trabalhar aqui. É um garoto, praticamente. Tem uma vida inteira pela frente. Me diga, garoto – puxou uma pasta da gaveta – você tem mulher?
- Hm, não senhor.
- Digo, não exatamente casado, mas noivo ou namorando? – abriu a pasta, tirou uma ficha, passou os olhos.
- Não senhor.
- Ahm, o senhor é homossexual? Sua ficha não diz nada sobre isso. Não que isso signifique algo de bom ou de ruim. Veja, garoto, não tem problema em gostar de pau. Somos todos colegas de trabalho. De trabalho. repetiu enfaticamente.
- Não senhor,  só solteiro.
- E bicha?
- Não, hétero.
- Sei. Bom, como eu tava dizendo... Você é um rapaz com vitalidade, jovem, provavelmente encontrará uma boa moça, casará, terá alguns meninos, meninas, ou os dois. E vocês terão um cachorro, essas merdas. Ou gatos. Sei lá.
- Senhor?
- Diga.
- Cometi algum erro?
- Bem, não, não, seu trabalho é muito bom. Eficiente e tudo mais. Poderia até lhe dar um aumento, sabe?
- Mas...?
- Aí é que está. Tem a crise.
- A crise?
- É a crise, a crise. E infelizmente ela tá ameaçando a empresa.
- Entendo.
- Bom, tivemos de remanejar muitas coisas, recalcular custos, reduzi-los... Você deve até ter deparado com algum serviço direcionado a isso.
- Hm, não lembro bem.
- Certo. Garoto... Bem que poderia te enrolar falando um monte, mas prefiro chegar ao ponto.
- Senhor?
- Uma das maneiras de enfrentar a tal crise na empresa foi redirecionando gastos. Por exemplo, as escadas estão com alguns degraus partidos e o corrimão está solto. E não pudemos pagar a checagem periódica do sistema elétrico do elevador. Tivemos de tomar algumas medidas drásticas pelo bem da companhia.
- Estou demitido?
- Isso.
- E quem mais?
- Por enquanto só você.
- Sei
- Peço pra que não tenha nenhum tipo de ataque. Controle-se. Quebrar as coisas do escritório causaria alguns prejuízos pra empresa. E estamos apenas com um dos seguranças, ele demoraria um pouco pra chegar até esse andar e... bem, acho que você entendeu.
- Não se preocupe, vou recolher minhas coisas discretamente.
- Mas olhe, não fique assim, daqui pro mês mais cabeças irão rolar.
- Isso me deixa aliviado – pensar que alguém que dependia mais ainda do salário estaria desempregado era uma idéia reconfortante. Especialmente alguém com filhos.
- Obrigado pela compreensão, garoto. Escute, seu salário do mês será depositado normalmente e você receberá a indenização. Hm, em partes.


Silêncio constrangedor. Estendeu a mão. Cumprimentaram-se.

- Boa noite.
- Boa noite, garoto. Boa sorte.
- Obrigado.
- Ahm, mais uma coisa. abriu o armário no canto da sala.
- Hm?
- Gostei de você garoto. Considere um presente de despedida.


Pegou a garrafa de uísque com uma das mãos e cumprimentaram-se mais uma vez.

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