As fagulhas e os pedacinhos de brasa flutuando no ar eram como insetos pequenos voando até desaparecer completamente, vaga-lumes que decidiam brilhar com força total antes de sumirem e sua casca se torne fria e se misture ao resto das coisas frias e sem vida que evaporam de um jeito imbecil pelo ar. Eu estava ali olhando pra língua de fogo subindo e descendo. pras línguas de fogo. Quando eu era mais novo toda a idéia de luau era extremamente atraente e empolgante, até que eu realmente descobrisse que as coisas não se parecem tanto assim com os filmes que eu costumava ver. E os luaus se tornaram uma coisa qualquer. Mas vez ou outro eu ainda pra algum.
Não com a mesma motivação, claro. Uma das melhores coisas que deve existir em um luau é a combinação dos fatores que quase ninguém percebe. Só os bêbados, os deprimidos e os bêbados deprimidos. Não era e ainda não é normal de se fazer tanto frio, mas eu também não tinha nada contra a noite daquele jeito. O mar estava mais distante e recolhido em maré baixa, e seu barulho pesado ecoava como a presença de uma legião de fantasmas de espuma escondidos em algum lugar. As nuvens cobrindo o pedacinho visível da lua. O vento fazia questão de maltratar até as bochechas como se estivesse cortando o rosto com uma lâmina fina e o desejo mais filho da puta de tortura.
Eu não estava bêbado, mas estava bebericando alguma coisa horrível, afastado do grupo maior e olhando pra fogueira. Na verdade eu estava sentado do lado dos bêbados derrubados, dos completamente fodidos e acabados que estavam dormindo ou prestes a vomitar ou prestes a entrar num coma alcoólico. Uma garota sentou do meu lado. Pediu um gole do que eu estava bebendo. Era sobrenaturalmente bonita e tinha o par de olhos verdes mais bonitos que eu já havia visto.
Depende. Você vomitou?
Não. Você não me daria caso eu tivesse?
Daria. Só que pegaria um copo.
Esperto.
Não. Só prático. entreguei a garrafa, ela entornou, respirou pesado por uns dois segundos e devolveu a garrafa.
Que merda horrível.
Eu sei. tomei um gole e estiquei as pernas na areia.
Serve pra esquentar pelo menos.
Acho que sim.
Você não é muito de falar, né? pegando a garrafa e tomando mais um gole.
Até que sou. Mas acho que não tô numa de falar.
Acho que te entendo.
Depois de pegar a garrafa mais uma vez nos apresentamos e nos mantivemos em silêncio por algum tempo. Tomei um gole doído e demorado. Um filete de suor desceu pela testa.
Caralho! Fez efeito!
É?
Caralho que sim. puxei as mangas do blusão e desabotoei a camisa que estava usando por cima.
Deixa eu ver. puxou a garrafa das minhas mãos e fez o mesmo. Limpou as lágrimas dos olhos e abriu o casaco – Porra!
Eu disse. rimos
Conversamos mais, até que a merda toda fizesse mais efeito e até que, pelo menos não sobrasse mais nada pra beber.
Ao ponto que bebíamos e o frio desaparecia nos livrávamos de algum jeito do agasalho. Ou puxando as mangas, ou desabotoando ou até tirando. Ela estava só com uma blusa curta e a calça jeans. Eu só com a camisa mal abotoada e as mangas puxadas até o começo dos antebraços. Bebi um gole mais longo e cuspi um pouco no chão.
Ela riu, mordeu os lábios e fez o mesmo. Depois desabotoou, puxou o zíper e se livrou da calça e da camisa. Há momentos em que nem mesmo estar alcoolizado serve de alguma porcaria pra determinadas situações. Todo homem sabe como é difícil ficar de pau duro estando bêbado. A concentração necessária, desviar o fluxo sanguíneo, sentir as pernas dormentes e ficar um pouco tonto só por uma ereção. Não tinha sido necessário. Assim que ela prendeu os cabelos e rebolou os quadris na calcinha e sutiã rosa claro à luz da fogueira, os deuses da ereção entraram em ação e fizeram valer anos e anos dos milênios antepassados e esquecidos de paganismo.
Ela riu e andou até que só uma metade do corpo ficasse iluminada. Sorriu e arrumou o cabelo mais uma vez.
Você vem?
Meu corpo reagiu automaticamente, fiquei de cueca e a ouvi rindo enquanto corria em direção ao mar. Joguei as roupas, juntas, em cima das coisas de um amigo e corri também. Eu não estava mais bêbado e muito menos deprimido. Só com a barraca armada e correndo no escuro até a água, rindo da situação e tentando enxergar alguma coisa na minha frente. Quando finalmente cheguei lá e entrei na água o mais rápido que pude e a ouvi rindo. Procurei por meia hora dentro d’água até que o pau baixou e eu me cansei da brincadeira. E parei de ouvir a risada, claro.
Voltei até a fogueira arrastando os pés, tremendo e batendo os dentes de frio. Que grande merda. Pelo menos o frio não fazia tanto efeito, por ter que dividir atenção com a decepção e o nervosismo. Coisas assim acontecem, verdade. Mas quem conhece coisas assim não deveria cair numa merda dessas. Continuei caminhando até a luz da fogueira que tremia distante. Eu não entendia bem o porquê dessas coisas acontecerem. Talvez ela estivesse junto do resto do pessoal, rindo da minha cara. Talvez fosse armação de algum amigo. Não fazia muito sentido além do sacanear por me foder o juízo. de graça, claro. O grande problema foi lembrar o nome da garota. Afinal, eu teria de perguntar pra alguém. Essas merdas preocupam. E se ela tivesse se afogado ou alguma merda? Percebi a seriedade da situação e saí correndo, vesti minhas roupas e perguntei pra todo mundo sobre.
Ninguém lembrava ter visto nenhuma garota com aquelas descrições. Bêbados inúteis de merda. Peguei um dos pedaços de madeira da fogueira e improvisei uma tocha pra procurar melhor. Saí correndo mais uma vez em direção ao mar. Tinha de lembrar o nome da garota, tinha de gritar por ele, chamá-la e esperar que nada tivesse acontecido. Quando cheguei perto d’água percebi que o pedacinho da lua havia reaparecido e as nuvens haviam desistido de encobri-la. Entrei n’água até os joelhos e comecei a andar desesperado. Pelo menos até lembrar o nome da garota e entender o que realmente havia acontecido.
Ouvi o som da risada de Nereida mais uma vez.
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