Saiu impassível e caminhou até o almoxarifado. Pegou uma caixa de papelão vazia e foi até o cubículo. Ligou o computador e apagou algumas bobagens. Trancou mais uma vez as gavetas e saiu sob os olhares dos curiosos. Por mais discrição que houvesse a situação era óbvia. Havia poucos curiosos. Alguns estavam concentrados em seus trabalhos. Ou jogando campo minado. Olhou uma última vez pro gerente de departamento. O sorriso irônico extremamente convidativo. Foi até a porta do elevador e ouviu risadinhas. Colocou a caixa ao lado da porta e deu meia volta. Já estava demitido, tudo que acontecesse seria por sua conta. Caminhou a passos largos e tomou impulso. Cruzado direto no rosto do escroto. Em cheio. Arrebentou-lhe os óculos. Teria lhe partido o nariz também, mas já era partido. Mas as histórias eram verdadeiras, quem diria. Levou um na boca do estômago e urrou de dor. Defendeu o segundo que seria bem nas costelas, ouviu gritinhos empolgados vindos da platéia. O terceiro, um gancho medonho. Defendido uuuuuh. Numa brecha mínima falseou o corpo pra um lado e acertou uma joelhada na barriga do adversário. O quarto golpe recebido não foi em cheio, mas acertou-lhe o rosto. Que impacto desgraçado. Quase-nocaute.
Decidiram apartar. A barriga doía. A bochecha direita latejava e estava meio tonto. Respirou fundo, livrou-se dos ex-colegas de trabalho, pegou a caixa e entrou no elevador como se nada tivesse acontecido. O sobrinho babaca estava se vangloriando por ter, supostamente, ganho a briga. Esperou vinte minutos pelo próximo ônibus. Como tinha valido a pena... Provavelmente o desenho do punho no dorso. E o rosto inchado e provavelmente roxo. Mas sorriso no rosto. Quando chegou em casa, subiu as escadas com o maior gosto do mundo. Peito estufado sob os olhares de alguns vizinhos. Abriu a porta e jogou as coisas no canto. Tirou a roupa. Foi até a cozinha e abriu o uísque que havia ganhado. Era extremamente vagabundo. Talvez isso tornasse a situação ainda melhor.
Jogou as roupas numa bacia. Tomou um gole. – Putaquepariu, que gosto de merda. Dá pro gasto. Tomou mais um gole. O gosto continuava ruim. Por mais que fosse agradável beber aquilo e balançar o pinto pela casa, precisava muito de um banho. Desejava um banho. Merecia um banho. Era um herói. Um brinde ao herói desempregado. Repugnante. Colocou a tampa de volta e guardou o uísque e todo ressentimento no armário. Easy living.
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