terça-feira, 18 de janeiro de 2011

1/3 de ficção num encontro real

O tempo era curto. Na verdade mesmo que fossem vários dias o tempo ainda seria curto.  Marcaram um ponto e um horário, o trânsito não contribuiu e ele chegou uma hora atrasado. Não era tão ruim assim esperar, mesmo que fosse uma hora e que o tempo estivesse ainda mais curto. Os dois pediram com todo afinco possível que não chovesse, pelo menos por enquanto. mesmo ele, que não acreditava tanto assim. Alguém ouviu e decidiu atrasar um pouco a chuva, o resto dependia deles. Ele era meio impassível e tinha aquele quê de homem gélido, mas nem por isso a gastrite nervosa lhe pouparia do nervosismo. Ela não havia dormido o suficiente na noite anterior.

Caminharam um pouco e ele não se importava que ela fumasse, então tudo bem, mesmo que ele detestasse o gosto de cigarro. Ele entendia que era o nervosismo. Acabaram ironicamente em frente ao prédio dele, subiram e os dois concordaram que tomar café não seria bom pra gastrite nervosa. Ela apagou o cigarro no parapeito da janela e as cinzas pareciam pequenos grãos de pólen que polinizariam uma impossível flor-de-tabaco no meio da plantação de concreto e coisas frias. Eles brindaram com água porque não tinha vinho, nem champanhe. Ela acabou fazendo chá e decidiram ver TV até que esfriasse. Não tomaram nada e no meio de alguns beijos e o programa de auditório ele disse alguma coisa realmente significativa, transaram devagar e depois dele ter jogado a camisinha fora ficaram abraçados por algum tempo por cima do carpete e ouvindo a estática do programa fora do ar.

Cada um tinha exatamente pra onde ir, ele tinha um avião pra pegar, ela tinha um ônibus pra pegar e estavam ridiculamente amarrados aos seus próprios horários e tinham de voltar pra algum lugar que lhes esperava sem nenhum tipo de convalescência. Ficaram abraçados por mais algum tempo, até que ela foi tomar banho e ele desceu pra comprar antiácido. Ele voltou e ela estava fumando encostada no parapeito. ‘Agora eu vou apertar sua bunda’’Por quê?’’Não sei se é um bom motivo pra você’’Tente’’Ela é convidativa’. Ela gargalhou e ele encheu a mão em uma das nádegas. ’É um motivo razoável’.

Ele tomou banho enquanto ela ouvia Chet Baker mergulhada no sofá e comia o macarrão instantâneo que ele havia preparado. Ela colocou a calça, devolveu a camisa dele e colocou uma das que tinha na mochila. Ele se vestiu e foram até a rodoviária. Era uma longa caminhada, os dois mantinham as mãos atravessadas uma na outra e não falavam quase nada, a gastrite corroia o estômago dele e ela fumava outro cigarro. Tomaram o caminho mais longo, chegaram rápido demais e o ônibus já estava lá, a pouco de sair. Ela jogou o cigarro perto do meio fio e pisou com a ponta do tênis, tirou um pacote de balas da mochila e pôs algumas na boca, mastigou rápido e engoliu. Ele riu e ela corou de leve. Deram as mãos e o beijo durou alguns minutos, ele nunca havia beijado alguém com tanta vontade. Ela nunca fora beijada com tanta vontade por alguém. Não estavam satisfeitos o suficiente, mas estava bom assim.

Não se veriam mais. Pelo menos por um bom tempo e as coisas já não eram mais tão simples assim. Ela ajeitou a mochila nas costas e subiu no ônibus, ficou na janela e assim que a porta se fechou e o motorista deu partida e o motor fez um barulho terrível e intimidador a chuva começou a cair, uma chuva forte e praticamente cinematográfica. Não era um momento triste, não era uma chuva triste, era o toque necessário ao momento, mesmo que aquela fosse uma cidade cheia de chuva e de momentos tristes. Ele pegou o celular, digitou algumas coisas e mandou uma mensagem. Ela tirou o celular do bolso e começou a chorar com um sorriso bobo. Ele tinha um avião pra pegar.

Ela leu mais uma vez. ‘E no meio da chuva na cidade cinza, meu sol sorriu'

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