Luz batendo em um único ponto do quarto e todo resto em penumbra. A luz vem da janela, as cortinas fizeram isso. Canalizar e centralizar esse feixe deprimente e delineado de luz numa geometria estranha. A mulher está deitada na cama, enrolada nos lençóis e completamente nua. Ele está sentado em frente a uma mesinha com uma máquina de escrever e batendo os dedos nas teclas.
- Por que você faz isso?
- Hm?
Ela pega um cigarro da bolsa, acende, veste a calcinha e a camisa dele. Ele toma um gole de café fumegante, está sem camisa de calça meio aberta e ainda batendo com os dedos nas teclas.
- Você tem um computador aí e prefere usar essa máquina velha. Por quê?
- Hm, acho que gosto do barulho e do peso das teclas.
- Você gosta de esforço?
- Depende.
- Digitar num computador seria mais fácil e as teclas são mais leves.
- Acho que pra maioria das pessoas é assim. Mas eu gosto desse som.
- Sei.
Ela traga o cigarro algumas vezes, abotoa parte da camisa, puxa as mangas e caminha até ele. Pega a xícara vazia, passa a mão nos cabelos dele e lhe dá um beijo na cabeça. Ele sorri e a cortina balança um pouco.
Ela volta com duas xícaras cheias, coloca uma delas na mesa da máquina e toma aos poucos da outra. ‘obrigado’. Ela passa a mão no rosto dele e senta mais uma vez na cama, procura a bolsa, tira outro cigarro. ‘você quer?’ ‘quero sim’. Acende dois cigarros e fica com um, entrega o outro, os dois desenham formas abstratas. Ambos permanecem calados, o som das teclas parece uma metralhadora.
- Você trabalha em quê?
- Numa firma, contabilidade.
- Pensei que você era jornalista. alguma coisa assim.
- alguma coisa assim.
Ela ri e fica muda por uns instantes.
- Quer comer alguma coisa?
- Você terminou esse texto?
- Texto?
- É, esse que você tá fazendo.
- Ah, eu não escrevo.
- E o que você tava fazendo?
- Só batendo nas teclas, eu gosto do barulho.
- Que cara estranho.
- Acho que sim.
Ele traga com força e toma mais uma xícara.
- Dizem que café com cigarro faz mal pra caralho.
- Pra caralho?
- É o que dizem.
- Quer outro? O seu já tá acabando.
- Claro. Vou fazer café.
Ela pega mais dois cigarros, acende, entrega um. Ele sai do quarto com as duas xícaras e ela senta em frente da máquina. Depois de alguns minutos ele volta com uma garrafa térmica e duas xícaras, enche as duas e entrega uma. Toma um gole demorado, traga com vontade.
- Você tem razão.
- Sobre os cigarros e café?
- Não, o barulho.
Ela bate os dedos devagar nas teclas, ele tira as calças e deita na cama.
- Acho que amo você.
- Como?
- Vem pra cama.
- Hmm, tá certo.
Eles transam por um tempo até que a luz que era branca e entrava fraca pela janela e pálida pelas cortinas se tornar amarela e forte o suficiente pra atravessar o tecido vagabundo. Os dois gozam, fumam mais e bebem mais café.
- Você devia largar seu emprego e começar a escrever.
Cá estamos.
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