sábado, 12 de junho de 2010

Percebido

Aqui eu te amo.
Sentado na beira do vazio
que realmente significa alguma coisa.

A luz passa rente a meus pés,
dançando na água que não está lá,
são peixes coloridos, imaginários, pulando
em busca da alga e da areia soterrada,
arcando o corpo no ar e revolvendo

a incontinência estranha d'água,
que mal percebe o que acontece,
continua rio abaixo, seu curso
fictício, anágua só desce.

Aqui eu te amo.
Espero pacientemente o pôr-do-sol
numa ravina silenciosa, que não está lá.
A grama transgride seu próprio espaço
vence o peso dos animais ali aninhados,
encaracolam e crispam e chacoalham
em seus pés, patas e cascos,

e isso realmente significa alguma coisa.

Já me creio esquecido e ao mesmo tempo
intensamente distante, meu tédio mede
forças com o descrente sorriso que,
em algum momento, é um tipo esquisito
de abandono, e é como eu te amo,

caminhando na borda da escuridão
desenhada nos cantos das paredes frias
do corredor, as perpendiculares macias
e as paralelas entranhas, concorrentes
e morbidamente translúcidas.

Aqui eu te amo, do alto de uma nuvem
que tem aquele formato, aquele,
aquele qualquer formato, que até mesmo
eu dissesse que parece o Arpoador,

ou um leão roncando por entre milhões
de carneirinhos no mar.

Nuvens que nem mesmo
estão lá.

Um comentário: