O interfone tá tocando. Nunca gostei de falar no telefone ou no interfone ou em qualquer coisa assim. Celular pior ainda. Consigo falar umas besteiras e segurar aquele ah, vai se foder bem no fundo da garganta e enrolar por mais alguns minutos. Sou vinte e cinco por cento tímido e vinte e cinco por cento anti-social. Mas quando tudo isso desaparece a máscara cai eu exagero. Exagero falando, falo muito. Daí às vezes falo muito pouco e mostro o inconstante extremado que eu sou. Não, não vou atender o interfone. Se o barulho dele te incomoda, atende você. Ele me incomoda também, mas eu aprendi a ignorar e viver de mansinho e na ponta dos pés. Parou, viu só? Daqui a pouco começa a tocar de novo. Agora descobri coisas mais interessantes pra fazer. ‘E se fosse o amor da sua vida no interfone?’ Ah, se fosse o amor da minha vida não usaria interfone. Eu deixaria de amá-la no mesmo instante e automaticamente tudo acabou.
Acho lindos esses marcadores de página, mas quase nunca ando com eles por aí dentro dos livros e coisa e tal. Às vezes me empurram aos milhares e às vezes mesmo implorando não me entregam unzinho. Tá, eu não imploro. E nem uso tanto assim marcador de página. Ultimamente tô exercitando a memória, mas só com alguns dos livros, não todos. É, sou daqueles maníacos que lêem mais de um livro por vez – se você não o faz, deveria. Daí eu procuro exatamente onde eu parei e tem aquela palavrinha marcante que eu usei como deixa pra parar/continuar. Não funciona com todos os livros, óbvio. Comprei um do Burroughs, O gato por dentro, e tô usando uma moeda de dez centavos pra marcar onde parei. Depois fico puto por nunca achar minhas moedas de dez centavos. Especialmente quando preciso. Ih, o interfone de novo. Bom, já disse, deixa tocar. Quem sabe eu perco menos tempo escolhendo um próximo amor desse jeito.
O gato tá roçando na minha perna. O nome é Buk, Buk de Bukowski. É um gato magrelo, preto e quietinho. Que gosta bastante de Smiths. Por exemplo, agora tô ouvindo This Charming Man, acabei de colocar pra tocar. E o magrelo apareceu rebolando como se viesse dançando. Ele tem um bom gosto musical. É um filhotinho, desses mínimos. É magrelo porque é desses típicos gatos pretos que ninguém gosta por achar que dá azar. Tem olhos amarelos, parece gente. Tá enrolado no meu pé e escrevendo junto de mim. A mãe dele era uma gata enorme, parecia uma mini-pantera. Gata-sem-nome. Não era uma gata gorda, era simplesmente enorme e, reza a lenda, vivia brigando com todos os cachorros grandes que encontrava. Morreu atropelada, uma tristeza. E o trolho eu peguei pra criar. Ou melhor, ele se instalou e firmamos nosso espaço comum numa boa. Talvez eu devesse treiná-lo pra atender o interfone pra mim.
What Difference Does It Make? Preciso fazer café. Talvez devesse comprar uma cafeteria dessas mais simples, pra facilitar todo o processo. Não estou sozinho, talvez eu devesse fazer mais café que o normal. Uma das melhores coisas de se fazer/beber café é ficar com o cheiro dele nos dedos. O gato tá dormindo do lado do computador, embrulhadinho porque tá chovendo. E parece uma bolinha preta de pelúcia, mesmo sendo magrelinho. O interfone parou de novo. Talvez eu deva arrumar uma cama maior. Some Girls Are Bigger Than Others. Juro que são. Essa aqui, deixa ver... deve ter uns 1,78 e é uma mulher grande. Não é gorda, só grande. Duas pessoas numa cama de solteiro por maior que ela seja não dá certo. Mas pra mim e pro Buk serve. Quando chove e a temperatura baixa um pouco ele enrosca na minha mão e talvez tente fingir que é uma luva. Ainda mais quando eu tô com cheiro de café nos dedos. Ele funga por uns dez minutos e depois começa a lamber carinhosamente.
Puta que pariu! é por isso que amor verdadeiro é difícil de se achar hoje em dia. Olha só o interfone tocando! Quando eu tava do lado ele ficou em silêncio. Demorei com a água esquentando e tudo mais. E ele de bico fechado. Deve ser sacanagem. Bom, perdeu uma boa oportunidade de ser atendido. Hand In Glove. Tá, tá, chega, vou botar Billie Holiday. Aiaiaiaiaiai, What A Little Moonlight Can Do. Buk acordou, deu duas reboladas e voltou a dormir. Sinal que gostou. Bom gosto o safado.
Hm, oi, bom dia.
Oi.
Dormiu bem? ela esfrega os olhos e me dá um beijo rápido.
Desmaiei.
Eu sei. Toma, café. Não sei como você gosta, daí fiz forte do jeito que eu sempre tomo.
Ah, brigada. Nossa, tá muito bom.
Nossa, Billie Holiday?
Billie Holiday.
Bom gosto.
Hahaha acho que sim.
Swing, Brother, Swing. E o interfone continua tocando.
Não vai atender?
Não mesmo.
Isso mesmo, Ring, Brother, Ring.
credo! me senti lendo eu mesma nos três primeiros parágrafos...
ResponderExcluirBuk se parece com minha gata Betina. Dia desses vi um filhotinho macho preto pra doação num pet e quase morri de vontade de pegar pra mim e deixar a Betina procriar mais vários gatinhos pretinhos, com olhos amarelos e gravatinha branca em forma de pelo *.*.
ResponderExcluir1 ANO, meu amorzinho. 1 Ano!
:*