terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sobre peixes e monólogos inventados na terceira pessoa

Se pudesse me dizer alguma coisa agora, o que seria?


Hm, provavelmente eu não diria que gosto de você.


Por quê?


Não seria capaz de uma coisa dessas. Fora que eu sou tímido.


Pera lá. quer dizer que sua não capacidade de me dizer que gosta de mim não depende só da sua timidez? É isso?


Menos da metade depende da timidez. Sei lá, uns trinta por cento.


É alguma coisa comigo? O que é?


Não é nada com VOCÊ. É mais pelo tipo de coisa que sempre acontece.


Explique.


Você tem qualidades. e defeitos. É bonita, tem um corpo bonito. É inteligente, sabe se comunicar bem, essas coisas.


Sei.


Mas é meio manipuladora, fria, mesquinha pra caralho.


Merda, sei.


Pois então. Você é uma garota atraente pra caralho, sabe? Nossa, sei de caras que ficariam loucos por você. Sei de caras que são.


Exemplo?

Hm, eu.


Sei. Mas...?


Eu gosto mais do gostar de você do que de você.


Não entendi porra nenhuma, explique melhor.


Certo, certo. Esse sentimento de não saber o que fazer, essa ansiedade maluca e esse comportamento de adolescente perdido, essas porcarias visivelmente sintomáticas como boca seca e pupilas dilatadas, extremidades um pouco frias e, nossa, peixes no estômago.


Peixes o quê?


É, peixes no estômago.


Não seria ‘borboletas no estômago’?


Bom, sei lá, nunca funcionou pra mim. Sempre foram peixes, um cardume organizado que nada dentro da minha barriga como se não houvesse tripas e nem porra nenhuma, só esse oceano estranhamente grande e limitado por carne.


E os ossos?


Parece que nem estão lá. E esse cardume se mexe como naquelas cenas do Globo Repórter sobre vida marinha, biodiversidade, saca?


Tipo no Procurando Nemo?


Como?


Aquela animação do peixinho que perde o filho e tudo mais.


Mas tem uma cena com cardume?


Não lembro, acho que tem sim. Todo desenho ou filme ou documentário ou animação que se preze tem de colocar um cardume zanzando por aí, hm, cardumeando, fazendo essas coisas que os cardumes fazem.


Concordo.


Pois é. Mas continue.


Onde eu tava?


Peixes no estômago...


Ah, sim! então, peixes no estômago. E... bem, essa sensação de...


Você perdeu o ponto, né?


Perdi sim. Deixa eu lavar o rosto e tomar uma xícara de café.


Tá.


Quer uma?


Não, obrigado. Mesmo que quisesse, não poderia aceitar, sou só reflexo da sua necessidade de dizer alguma coisa pra... bem, pra o meu ‘eu’ real.


Pra ELA.


Isso.


Hm, justo.


 


Telefone toca, ele vem da cozinha segurando uma xícara branca de fumegante, não há ninguém na sala.


Alô? Oi, certo, certo. Claro, vou me arrumar e te encontro aí daqui – olha no relógio de pulso – uns vinte e poucos minutos? Pode ter trânsito e tal. Então tá bom, até – desliga e toma um gole. O café faz todo o percurso até o oceano e seu cardume.

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