quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Seis (segunda parte)

Chovia bastante, desses pingos largos e galopantes. Levantei devagar, coloquei a calça e o blusão branco puído. Arrastei os pés no chão pra sentir o frio machucando a pele passo a passo até a cozinha. Puxei o celular do fundo do bolso, quatro e dezessete. Não parava de chover desde sexta à noite. Não voltei pra casa desde sexta à noite. Todo mundo achava que eu estava em casa desde que cheguei da aula, inclusive meus pais. Por um momento até eu achei que estava em casa, simples falta de credibilidade. Peguei uma cerveja do fundo da geladeira, quatro e vinte. Encostei na janela da sala pra sentir o cheiro de terra molhada e o vento frio machucando o rosto. Eu tinha dezessete anos na época. Algumas coisas mudaram desde então. Ainda não sei muita coisa sobre o mundo. A chuva continua uma das melhores coisas dele. Ouvi o barulho abafado da descarga. Ouvi a geladeira abrindo e fechando, e com o canto dos olhos vi luzes acendendo e apagando. Senti o cheiro da fumaça e dei espaço na janela, praticamente impassível e estranhamente acostumado. Encostou do meu lado e soltou um largo anel de fumaça. Quatro e meia, o céu quase vermelho. De vez em quando algum relâmpago iluminava o mundo inteiro por meio segundo. Passei a mão em volta da cintura e puxei pra perto. Cedeu sem resistência, encostou parte do corpo no meu e permaneceu em silêncio enquanto terminava de fumar. Estava com minha camisa branca abotoada até o topo, as pernas descobertas e a pele fria à mostra. Jogou a bituca apagada dentro da minha garrafa vazia, passou a mão por minhas costas devagar.


- Vai ficar o feriado inteiro aqui?
- Não sei. Você quer que eu fique?

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