quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pequenas Canções (parte 7) - Capítulo 3

Ele acordou aos poucos e ficou olhando o ventilador de teto girando pela fresta entreaberta dos olhos e do lençol cobrindo metade da cabeça. Levantou de cueca e camiseta e deu um pique até o banheiro pra vomitar, tropeçando e rebatendo o corpo pelas paredes pra chegar até o vaso e tossir dolorosamente e cuspir sem sequer o mínimo sinal de refluxo. Foi até a geladeira e pegou a penúltima e mais gelada cerveja pra tirar o gosto fantasmagórico da boca, pra acalmar a língua grossa e pastosa e começar a trabalhar na ressaca.


Ouviu os passos correndo do quarto pro banheiro do mesmo jeito que fizera, ouviu a tampa levantando do mesmo jeito que fizera e, pelo jeito, a mesma situação, só pra completar outra descarga fazia sem sequer descer quantidade aceitável d’água. Sentou no chão com as costas encostadas na parede e terminou a cerveja em mais dois goles longos, pegou a outra – a última – e dividiu com ela assim que se sentou na cadeira junto da mesa. Ela com a camisa dele semiabotoada e de calcinha, de cabeça baixa e terminando a outra metade da segunda garrafa. Abriu a mochila de cima da mesa e puxou uma cartela de comprimidos, tirou três e jogou dentro da cerveja, tomou alguns goles e entregou – É pra ressaca, toma.


- Posso tomar um banho? Tenho aula daqui a pouco e tenho uma roupa aqui na mochila.
- Tudo bem. Volto já.


Lavou o rosto, vestiu a calça que estava no chão do lado das garrafas de uísque e vinho, calçou o sapato sem meia. Pegou os óculos escuros dela, juntou alguns trocados da gaveta e saiu pra comprar pão e mais alguma coisa pra comer. Voltou uns minutos depois, fez omelete com queijo e um pouco de verdura picada, passou café com pouco açúcar e ficou encarando o teto enquanto fumava. Ela saiu arrumada, de óculos e cabelo preso e, diferente dele, com uma cara ótima


- Queria ter esse nível de recuperação.
- O que um banho e um doce não fazem. Ainda tem na mochila, se quiser.
- Fiz café e omelete. Comprei pão e tem cigarro. E a bala eu decido se tomo depois.


Ele cortou a omelete ao meio e dividiu cada metade em cada prato, encheu as duas xícaras, avisou que estava forte e que tinha um pouco de leite na geladeira. Ela pegou um cigarro da carteira, acendeu no fogão, comeu com pressa, escovou os dentes e disse que tinha de sair pra não perder a aula.


- Queria ter esse nível de café da manhã todos os dias.
- Eu também.

2 comentários:

  1. esperando pelo próximo, somente se for tão bom quanto esse e todos os outros (:

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  2. Conheci um escritor hoje hahaha ;)

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