Não tem trabalho pra agora. Já escrevi os artigos, mandei pra revisão e fui pago, tudo bem adiantado. Não há muito que fazer, contas já pagas e sobrou um bom dinheiro graças às bonificações em relação ao tempo e isso dá uma margem pra custear meus vícios. Porque a minha vida, e a de todas as outras pessoas embora não admitam, depende também desses vícios. Vício é vício e não importa se você fuma, joga compulsivamente, bebe feito um maluco – seja álcool, café, refrigerante, ou suco de laranja – ou é viciado em pornografia. Você precisa do silêncio mental constrangedor com o qual você não se importa. E não dá pra pensar sinceramente em colocar um ponto final e se enganar, porque o máximo a se fazer é enfiar uma vírgula e trocar um vício por outro. Nem que troque por um comportamento paranóico. E talvez, se não aprender a aceitar a si mesmo, acabará enrascado e realmente sozinho com as pessoas ao seu redor ou não.
Meu chefe atual tem uma coleção de isqueiros. Esse aqui acabei ganhando porque ele tinha dois. Uso em ocasiões especiais. Quase todas são e eu prefiro fingir que existirão melhores chances pra fazê-lo, mas acabo usando mesmo assim. Coloco o The Song Remains The Same pra tocar, acendo o melhor dos piores cigarros e sorrio no escuro. A porta do quarto destranca e ela sai rebolando de calcinha e com a minha camisa de botão preferida, pegou um baseado da bolsa e acendeu na ponta do meu cigarro. Vai até a geladeira e pega a minha jarra de suco de laranja, batiza com a vodka do armário e senta no chão pra ficar calada. O gato pára do meu lado, desloca as vértebras estirando o corpo, ronrona, mia baixinho (sarcasticamente) e desaparece no corredor.
- Como você quer que isso acabe?
- Eu quero que isso acabe?
Ela toma um gole demorado e suspira.
- Você quer me contar alguma coisa?
- Eu tive um sonho. Um sonho louco.
- Ahn?
Limpei a garganta e tossi um pouco - Ouça minha canção.
Ela terminou o suco e lavou a jarra, pegou um cinzeiro e colocou do meu lado, tirou a camisa e foi pro quarto pra colocar a própria roupa.
- Você não vai ouvir agora? Cante junto.
- Você não vai mesmo dar o braço a torcer, vai?
- Não mesmo.
- Você não sabe o que está perdendo agora.
- A luz do Sol da Califórnia, na doce chuva de Calcutá, a Honolulu estrelada?
Ela puxou a agulha da vitrola e eu parei de citar a música.
- Olha, Diana, hm..
- Você prefere mesmo se manter sozinho?
- Eu sempre me mantenho sozinho. Ainda mais com coisas que não dão certo.
- Como relacionamentos?
- Isso. É o único vício que eu admito.
Coloquei a agulha na vitrola e respirei fundo.
- As luzes da cidade são brilhantes, enquanto vamos escorregando, escorregando, escorregando por completo...
- Você é... é...
- Sou...?
- Irreversível.
- Irreversível?
- Isso.
- Oh, mas eu sei que eu amo você assim.
- Não tente me conquistar citando as músicas de sempre.
- Por quê?
- Porque as pessoas às vezes mudam. Ou fingem que o fazem. Mas canções... as canções continuam as mesmas.
(über) gran finale.
ResponderExcluirobservaçãozinha: nem identifique aquela parte que ouvi boatos que estava uma droga e precisava ser refeito, no começo algumas nuaces da quase perfeição e no meio só frases interligadas a uma percepção de mundo e sensibilidade que me fazem constatar que bróther, o verei lá na frente ocupando uma coluna de jornal.