segunda-feira, 16 de maio de 2011

La Noyée (la manière qu'il devrait être)

Sentei nos primeiros degraus do lance de escadas do segundo andar, arregacei as mangas até a metade dos antebraços e me senti um pouco culpado por nem sequer ter vontade de chorar. E ao ponto de me sentir um pouco responsável sobre tudo. Apoiei o cotovelo na perna e segurei a cabeça, pelo queixo, com a palma da mão, respirando forçadamente pela boca durante alguns minutos enquanto um pouco da fumaça do frio ardia nas bordas dos lábios. Doía bastante, claro. Fechei os olhos pra lembrar o que havia acontecido. Uma discussão boba, as discussões sempre são bobas. Descobri que ela estava me traindo há umas duas, três semanas, e não havia nada de tão doloroso nisso depois de todo afastamento. Não havia muito que confrontar, só falar o que eu já sabia. Fazer cara de bravo (talvez) e esperar que tudo acabasse da melhor forma possível.


Nunca consegui fazer cara de bravo, ainda mais quando não faz a menor diferença, então, logicamente, apareci com um ar indiferente e decidi que não precisava de cerimônias pra lhe dizer a verdade, nem pra confrontar. Quando comecei a falar ela se deu ao trabalho de negar por algum tempo, pouco tempo, já que não era nada necessário. Fui até a janela e encostei contra o vidro frio e imenso, e as luzes dos bares, do shopping e dos carros refletiam no vaso de flores sem flores e no espelho de canto rachado. Você lembra daquele música do Gainsbourg? Qual? La Noyée. O que isso tem a ver? Acho que significa “a afogada”. Isso, mas o que tem a ver?


Você entrega os pontos sobre o rio das recordações, e eu, corrente sobre a margem, grito que reapareça, mas, lentamente você se afasta, e em sua rota desnorteada, pouco a pouco recupero um pouco de terreno perdido. Abri a janela e perguntei se poderia acender um cigarro. Ela fez que sim, acendi, traguei e continuei. De tempos em tempos você avança no líqüido instável, ou melhor, arrastando alguns galhos você hesita e me espera escondendo seu rosto em seu vestido levantado, por medo que não te desfigurem o medo e a vergonha e os lamentos. Você é apenas um pobre farrapo. Fiz uma pausa e expliquei que não a chamaria de cadela, apesar de que o houvesse na música. Fatigada em um fio d’água.


Respirei pesadamente enquanto ela enxugava inutilmente mais algumas lágrimas. O que você quer dizer com isso? O que você acha? Você não terminou a música. Eu sei. Cadê o “mas continuo seu escravo, e mergulhado no riacho quando a lembrança acabar e o oceano do esquecimento romper nossos corações e nossas cabeças, para sempre nos juntaremos”? Ele não está mais aqui.


Abri os olhos, ouvi alguns berros vindos do penúltimo andar, achei graça e sorri. Dei a volta no prédio e a vi atirando algumas coisas pela janela. O vaso vazio não caiu, foi atirado contra o outro prédio, ao lado, e espatifou com força na parede espalhando água e barulho. Depois um porta-retratos, dois livros (péssimos livros, ótimos presentes). Alguns dos outros presentes que eu havia lhe dado continuaram caindo. Por último alguns CDs saíram pela janela. Quando a confusão havia terminado e ela fechado a janela, recolhi o lixo do meio da rua e joguei numa lata de lixo. No meio de tudo havia um CD gravado, escrito Serge Gainsbourg de caneta de retroprojetor, que guardei no bolso do casaco, e então nadei até a superfície olhando a imagem da afogada na janela.

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