O ar era completamente palpável e, praticamente visível. O silêncio era desesperador e frio como o fio de corte de uma navalha precisa. De vez em vez alguém engolia seco, preocupado, consternado. Era como o ronco de um foguete naquele ambiente de um silêncio perturbador. Uma mudez ensurdecedora que maltratava os ouvidos. Era como se o mundo todo houvesse parado. Parado na eternidade daquele momento inóspito. Da presença de vida no silêncio.
A televisão que a pouco estava ligada, agora estava completamente desligada. Até mesmo Leão, o cachorro da família, que sempre era agitado e barulhento, estava quieto e aturdido por debaixo do sofá vermelho.
Olhos pairavam procurando uns aos outros. Seu Leonor, chefe da família, apresentava uma expressão séria e preocupada. Suas órbitas praticamente saltavam do rosto, percorrendo cada parte daquele perímetro familiar. Gotas de suor escorriam por sua face e pingavam em sua camisa branca, desabotoada.
Dona Zulmira estava encostada no batente da porta da cozinha. Mãos na boca, como se chocada. Os braços tremiam e as pernas mal davam conta de segurar o corpo, de tanto que bambeavam arqueadas. Vestia um avental encardido, de tantos anos de cozinha. Sua pele morena parecia ter desbotado e, suas enormes narinas aspiravam grandes quantidades de ar, inflando-se repetidamente. Mordia de leve os lábios, deixando-os um tanto arroxeados e com um aspecto de maltratados.
Carlos, o filho mais velho, estava enterrado no sofá, de onde por debaixo, ouvia-se a respiração de Leão. Mãos nas têmporas e cotovelos apoiados nas pernas. Raspava os dentes como numa demonstração silenciosa e amedrontadora de bruxismo consciente. De vez em vez seus dentes rangiam de leve, provocando pequenos sustos em dona Zulmira. Um único filete de suor descia-lhe do rosto, do alto de sua testa. Percorria toda sua face num ziguezague estranho e parava em seu queixo, onde avolumava numa grande suma, prestes a pingar no tapete amarelo-mostarda.
Maria, a filha mais nova, segurava apreensivamente sua boneca contra o corpo. Apertava-a como se tentasse protegê-la de algo. Seus grandes olhos verdes estavam mais abertos que nunca. Refletiam a luz da antiga luminária que pendia do teto. Olhando em seus olhos podia-se até perceber que duas das quatro lâmpadas estavam fracas. Observava atônita, com a perplexidade possível só a uma criança.
De súbito, o aparelho enorme que jazia morto e sem vida em cima de uma estante assobiou. Todos se olharam. Estalidos, cliques, zunidos. O mundo voltou a movimentar suas pesadas engrenagens. Seu Leonor afundou-se na velha poltrona verde e soltou um suspiro. Dona Zulmira sorriu um sorriso sincero, mesmo com seus lábios arroxeados e com marcas de dentes. Carlos respirou fundo e sorriu também. Maria voltou a brincar com a boneca e a cantarolar suavemente. A televisão voltou a funcionar, último capítulo da novela.
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