Era época de natal. A luz do sol iluminava timidamente aquele bairro pobre, que mal se destacava do resto da cidade, quanto mais do resto do mundo. Talvez o sol mal soubesse que iluminava aquele lugar, fosse mero acidente cósmico. Aquele bairro mínimo, que havia começado como invasão, ficava ao lado de um córrego e, mais a frente, um riacho. Tal riacho era a diversão das crianças daquele lugar, que nadavam noite e dia. Mulheres lavavam roupa e, uma ou duas casas secretamente despejavam seus esgotos particulares ali.
Não era uma vida de regalias, não era um lugar de grandes construções nem de grande destaque, mas era cheio de harmonia.
Quando o sol começava a se espreguiçar no horizonte, muitos já estavam de pé, outros tomando banho e outros, café. O lugar era repleto de pessoas trabalhadoras, em grande maioria destinada ao trabalho pesado, braçal. Não havia violência e nem grandes rebuliços. Sofriam constantes cortes da energia elétrica – de instalação extremamente precária. Seu sistema higiênico não era lá essas coisas, mas dava pro gasto. Todos cuidavam de todos, como se fosse uma grande comunidade próspera.
Bem próximo ao riacho existia uma casinha pequena, simples. E lá morava uma moça morena, magrinha, que trabalhava como empregada doméstica, conhecida simplesmente por Ma, apelido dado a partir da lenda de uma sereia de água doce. Ma, do mesmo jeito que a sereia, adorava nadar, principalmente no córrego perto de casa.
Tinha um namoro que perdurava por alguns meses, com um rapaz trabalhador, ainda moço, chamado Zé. Este rapaz trabalhava de marceneiro, mas sempre ajudava os pedreiros nas mais diversas obras. Estava juntava aos poucos seus trocadinhos pra construir uma casa nova para si e sua namorada. Conheceram-se numa dessas festas de bairro, durante o São João. Foi amor à primeira vista. Tudo seguia perfeitamente normal, sem grandes expectativas, porém, sem grandes preocupações.
Naquela manhã, a moça havia acordado diferente. Sentia-se estranha. Com o passar do tempo a tal estranheza foi aumentando, fazendo-a sair do trabalho mais cedo, com licença de sua patroa. Sentia fortes dores de cabeça, dores abdominais e uma náusea incrível. A ânsia de vômito era incontrolável e, quase a fez ter um treco no meio da rua. Ali, tão pertinho de casa. Teria um treco, um piripaque, um ziriguindum e cairia durinha no chão. Não, não podia, não! Tinha de chegar em casa sã, em plenas faculdades mentais. E com muito esforço, assim o fez. Tirou o sapato, despiu-se, vestiu algo mais confortável e... saiu correndo até o banheiro. Vomitou até não poder mais. Quase não respirava. Sabia que algo estava errado. Chamou seu pai, pedreiro, que trabalhava com seu namorado na obra ao lado.
Ambos preocupados, não sabiam o que fazer. Chamaram a mãe da moça. A mãe benzeu, rezou, pediu pra o santo da católica, pro santo da umbanda e até pro Santinho, um senhor de idade daquele bairro, que diziam ter poderes milagrosos. O tempo passava e nada da moça melhorar. O mais curioso é que os sintomas não diminuíam e nem aumentavam. Permaneciam constantes. Alguns outros sintomas surgiram como, a constante ida ao banheiro e coceiras na perna esquerda, que estava um pouco empolada, talvez, conseqüência de alguma alergia.
Passou-se um mês e nada da moça melhorar. Perceberam algo curioso, a barriga da moça estava crescendo. Talvez fosse só impressão, vamos cuidar das outras coisas. Mas com o passar dos meses, sua barriga crescia cada vez mais. Não deu outra, o velho Alfredo, pai da moça sabia que a filha estava prenha. Chamou sua esposa, dona Rita, que o segurou com ajuda de seu irmão, Mário. O velho Alfredo queria a todo custo dar uma surra bem dada no rapaz, pra aprender a não ficar se engraçando com sua filha, emprenhar sem nem ter noivado.
Chamaram o rapaz. Uma inquisição dos diabos e, o bairro todo ficou sabendo da confusão. Todos queriam linchar o pobre do Zé. Falou-se até em prender o coitado numa gaiola! Mas o rapaz, desesperado, jurava de pés juntos, por sua mãe morta enterrada debaixo do chão, cheinha de verme e por seu padroeiro que não tinha feito nada.
Pressão de lá, resposta de cá, todos tensos. Decidiram tirar a prova dos nove, examinariam a integridade virginal – como era chamada por Seu Alfredo – da moça. Quarto trancado, a mãe, a vizinha e a filha dentro do quarto. Minutos depois a vizinha grita, acode! acode! acode! acode que comadre desmaiou! Não se sabia o motivo do desmaio nem do alvoroço. Valei-me minha Nossa Senhora, a mãe acordou, soluçava, urrava e tinha um sorriso rasgado de um canto a outro. Minha filha é virgem. É milagre, é milagre. Todos ficaram impressionados. O pai então, quase enfartou. Desculpou-se ao rapaz com todas as poucas palavras que conhecia. E repetiu quantas vezes achou possível e impossível repetir.
Falaram em construir uma capelinha em nome da moça. Era milagre, era filho do Espírito Santo, era Jesus voltando, acode, acode, o maior alvoroço e ficou a confusão armada. Todos cuidavam da moça e a tratavam com o maior mimo que poderia ser dado. Alfredo e Zé ocupavam-se construindo um estábulo improvisado, para que a volta de Zésus, o messias, fosse ao menos parecida com a primeira vez que houve de vir ao mundo. Passou-se o tempo e a barriga crescia mais e mais. Acertaram com a parteira, acertaram com Seu Santinho e com todo mundo. O dia que o menino nascesse seria uma festa inimaginável. Chamaram até os jornais para os meses que estavam pra chegar.
O tempo passou. O tempo estava acabando, sete meses, oito meses, nove meses e nada. Dez meses, Meu Deus e agora? Deve ser porque é filho Dele! Onze meses e minha Nossa Senhora, vamos pro hospital. Em procissão, foi o bairro inteiro com a moça até o hospital. Deram entrada, explicaram tudo. Mas não fez pré-natal? Valei-me minha Nossa Senhora, vamos pra sala de emergência então. Entraram com a moça. O tempo passava e nada. Algumas horas se passaram e volta o médico, com cara de riso, mas sem saber como dar a notícia.
E aí, seu dotô? O menino nasceu? E aquele rebuliço não tinha fim.
E foi então que ficaram sabendo que a virgem Marcela, tinha barriga d’água.
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