sexta-feira, 29 de maio de 2009

A cidade

Não se sabia ao certo quando ou como aquilo havia começado. Mas chegou de mansinho e instalou-se de vez na vida de todas as pessoas dali. As ruas eram completamente desertas, as esquinas eram completamente desertas, as avenidas eram completamente desertas e, até o céu apresentava-se num azul frondoso, exuberante, por falta de nuvens em toda sua extensão.
Um forasteiro chegou à cidade – o que de certo, não era nada comum.
Veio com passos tímidos pelo pueril daquela mínima cidade, quase no meio de nada. Seus sapatos mal fariam barulho em qualquer lugar, mas ali, o silêncio era tamanho, que suas passadas pareciam mais um rinoceronte truculento caminhando no concreto. O calor era infernal, já que nem mesmo o vento dava ar de sua graça.

Arriscou uma olhada por entre os becos, as vielas, as casas... Mas nada. Tudo parecia totalmente desolado, como se tivesse sofrido um abandono de última hora. Era uma cena um tanto quanto peculiar: objetos ainda permaneciam espalhados pela cidade.
Uma cadeira de balanço vazia em frente ao casarão velho; uma dúzia de bolinhas de gude, multicoloridas e cintilantes, espalhadas na calçada; carroça sem cavalo, arriada em frente ao depósito; garrafas de bebida, umas cheias, outras vazias, como se alguma bebedeira houvesse sido interrompida; uma corda de pular, trançada como nos tempos de antigamente; bicicletas deitadas na parte mais rebaixada da rua e tantas outras coisas que ia catalogando com sua retina. Não via ser vivo algum e nem mesmo, alma penada. Sentia-se o único ser do planeta e, completamente sozinho, vertia-se de solidão e angústia.

De repente, ouviu um ruído baixo vindo de um bar de aparência antiga, ao seu lado direito. Aproximou-se com uma faísca de alegria e outras duas de cuidado. Ouviu de novo o barulho. Decidiu averiguar mais de perto, era sua chance.
Arrastou-se suavemente até o local, tendo até abandonado suas malas no meio da rua. Arregalou seus pequenos olhos verdes. Suava frio, temeroso de que acontecesse algo de ruim. Chegou ao lado do bar, criou coragem e bateu palmas. Ô de casa! Ô de casa!
E nada. Repetiu o chamado por algum tempo. Mas nada acontecia.
Ô de casa! Ô de casa! Nada.

Olhou em volta e percebeu a enorme mesa de bilhar, gasta, com bolas em cima, algumas encaçapadas, outras não. Era como se um jogo houvesse sido interrompido.
Notou alguns tacos apoiados em cadeiras, outros em cima da mesa e um repousado no chão. Olhou bem o lugar. Viu alguns anúncios de bebidas das mais diversas e do prato do dia.
O silêncio era tanto que seus pensamentos ecoavam pelo lugar, dando impressão que os falava. Ouviu novamente o ruído, prestou atenção. PSIU! PSIU! Aqui... PSIU!
Procurou cauteloso a origem do chamado. PSIU! PSIU! Entendeu que vinha de uma fresta mínima na janela. Viu algo brilhando por ela e se deu conta que era um olho.

Aproximou-se vagaroso e confirmou sua presença, estou aqui, o que houve?
Venha se esconder, senhor! Rápido! Dizia a voz, quase inaudível.
Mas oras, esconder de quê? O que houve? Alguma criatura, algum criminoso, alguma alma penada, o quê? Respondeu o forasteiro, afobado, curioso e prestes a ter um ataque de ansiedade. Diga logo!
Vem vindo! Vem vindo!
O quê vem vindo, Meu Deus?
Mas você não soube? Não soube mesmo?
Cheguei à cidade hoje, oras, como poderia lá saber? Encontrei esse lugar completamente deserto, como se tivessem varrido a presença viva daqui. Quase enlouqueço!
Entendo sua frustração, senhor. Mas precisa entender que precisa procurar um abrigo, algum lugar pra esconder-se. Pode vir pra cá, se quiser.
Por quê?
Ela está vindo, diacho! Já não disse?
Ai, cacete! Já entendi que ‘ELA’ está vindo! Mas quem é ela?
O senhor não sabe?
Não, oras.
A tal da globalização!
Ora, pois!

Nenhum comentário:

Postar um comentário