quarta-feira, 13 de abril de 2011

Chocolate

Suas costas não são frias. Mas você tá com frio. Sua pele na verdade é morna e macia (isso sim eu já sabia). Sua voz, sua voz é desse jeito, bom, sou péssimo pra dizer como vozes são ou não são. Mas acho que ela é do jeito que tinha de ser, eu gosto. Não havia pensado, até então, como ela seria, estranho. Não consigo criar um ponto de referência, muita burocracia necessária. Isso pra não parecer irremediavelmente (acuado) confuso, definir um ponto e olhar fixamente pra ele. Aprendi, há muito tempo, que se não der pra olhar nos olhos de alguém, o truque é olhar pra sobrancelhas, ou pra testa e saber disfarçar. Merda de truque. Gosto de olhar nos olhos, de me entregar logo no primeiro ataque da artilharia, uma grande bosta.


Sua artilharia, massiva, é composta por dois eficientes batalhões, agindo com total eficácia em blitzkrieg. E então as trincheiras são desarmadas, os batalhões aniquilados, os homens, quando não mortos, tornam-se prisioneiros de guerra. Com o desmembramento imediato do exército, os batalhões marcham sobre suas terras e montam acampamento no terreno conquistado. Assim como são as suítes de Bach. Assim como a chuva fria que machuca devagarzinho na madrugada. Não há como escapar. Seus olhos estão na frente de todo o inferno, é inevitável. Minha curiosidade também é táctil pra caralho, compreenda. Preciso saber se não são só suas costas que não são frias, certo? Se eu me esforçar, talvez eu sinta o alguma coisa correndo por aí, pela carne, nas artérias, nas veias. Isso não significa que isso não seja mentira. Mas seria muito bom. Estar bêbado agora até que não cairia mal. Tá, certo, ligeiramente bêbado serviria. Vou te abraçar mesmo assim, você estando ou não com frio. Estando ou não bêbado.


Tenho culhões. Acho que tenho. Física e fisiologicamente falando, tenho culhões, tudo em ordem por aqui por baixo. Já psicologicamente... Bom, psicologicamente só pra discutir comigo mesmo, quietinho e disfarçando minha visível falta de culhões. Por que isso tudo? Ah, não é nada científico, nada filosófico, não é nada de merda nenhuma. Sabe quando a gente é criança e passa na frente do mercado, da mercearia, de uma loja especializada ou simplesmente perto de alguém comendo alguma coisa que a gente gosta e quer muito? Pois é, tá aí o problema. Vou usar um exemplo comum pra nós dois, que gostamos disso. Pra nós dois vírgula, essa é uma discussão mental particular. Você faz parte dela, mas não sabe. Queria muito que fizesse e soubesse, isso talvez resolvesse a falta de culhões (ou piorasse). Mas então, o exemplo. Chocolate. Imagina toda a história de ser criança, por não ter tanto auto-controle assim, e sequer ouvir falar de chocolate. Olha só que merda. Não dá só pra ver ou falar ou pensar em chocolate. Mas, sabe? É aquilo: vontade se tem de sobra. O que falta são os culhões.


Não tem como dizer, dizer mesmo. E, caramba, eu tinha (e tenho) tanta coisa pra falar. Dá pra perceber agora, né? Eu sei, eu sei. Mas, droga, você já tá indo embora. Se é embora, embora... embora meeeesmo, eu não sei. Mas tá indo. Se eu disser ‘até mais’ ou ‘até depois’, resolve? Você continua com frio, sua pele continua morna e macia. Deve ser a melhor superfície que existe pra se escrever alguma coisa. Você já percebeu isso e fez questão de não deixar o ‘caderno’ em branco, e eu gosto mesmo é assim. Se eu riscar alguma coisa com as pontas dos dedos automaticamente essa alguma coisa vai se tornar a melhor alguma coisa do mundo. Agora você já foi. Mas eu não disse tchau ou até depois ou até logo. Eu não disse nada. Quer dizer, nada além do que todo soldado indefeso e machucado poderia dizer. Eu me rendo.

Um comentário: